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Narrativas

Fosse eu apenas seria brando, na que escreve não tenho mão.

Narrativas

Fosse eu apenas seria brando, na que escreve não tenho mão.

Thunder

21.05.22, Maria Soares

 

Maçanetas, Fechaduras e Puxadores | OMA - Casa de Valentina

 

Gostava de trovões. Precipitava-se para a janela quando a trovoada se abatia sobre a cidade. A mãe assustada corria a puxá-la para trás advertindo-a do perigo, entre um benzer apressado e um evocar de Santa Bárbara! A custo e de cara feia obedecia e ficava a olhar de longe o clarão, cirandando ao som da chuva, a bater palmas quando a casa estremecia e a luz em pânico, por momentos, também, afrouxava, parecendo correr a esconder-se com o rabo entre as pernas.
Era isso que recordava hoje na frente de outra janela, num salão assaz descomunal como a vidraça, onde a chuva batia puxada a vento e, o primeiro sinal do trovão fez-se sentir, sem haver clarão, precisamente quando o seu "anfitrião" entrou.
Viera sem saber ao certo, por que  razão veio? Não via que relação esta casa e esta terra podiam ter com ela e a sua mãe, falecida há dois anos. Morara sempre em Lisboa com os pais. Pessoas que viviam dos seus trabalhos; num dos muitos bairros da cidade onde estudara e se formara. Nascera já os pais estavam casados há alguns anos e convencidos de já não conseguirem sê-lo. Fora sempre boa aluna, uma miúda calma, sem grandes exigências e motivo de orgulho para eles. Também os adorava! E o facto de, no dia do seu décimo sexto aniversário o pai ter desaparecido sem explicação, ainda a magoava e revoltava.
Desde esse e dia a vida de ambas mudou radicalmente. Dois anos depois a mãe era diagnosticada com Alzheimer. Assistir à decadência progressiva de uma das pessoas que mais amava, não recomposta ainda do golpe de perder outra que devia estar presente e dera provas de as amar tanto, como o amavam... fora atroz!
— Lídia Seabra?
Não ouvira a maçaneta da porta. Devido talvez, ao rugir da tempestade e estremecera ao voltar-se, não pelo ribombar do... mas...
— Sim!
Não o conhecia! A casa era-lhe igualmente estranha. A sua e a idade dele distariam no máximo, cinco anos. Porém, o cabelo era uma mescla regrada de branco e preto. O olhar grave e penetrante que lhe dirigia deixava-a desconfortável. Comparou-o ao de um animal sedento que controla o instinto, como se tal capacidade fosse vulgar e controlável, em irracionais. Era extremamente magro. Alto! E enquanto falava mantinha uma das mãos na maçaneta e a outra no bolso esquerdo. Como se ponderasse se avançava e, como alguém educado sentar-se e apontar-lhe um assento; ou deveria defender a porta. Não fosse surpreendê-lo e escapar.
Sentiu-se incomodada. Repentinamente acometida de uma leve náusea. Desejou fervorosamente estar muito longe dali! 
— Devem estar a passar-lhe pela cabeça as coisas mais mirabolantes e com razão. Num dia como este o meu cavalheirismo deixa muito a desejar. Por favor...
Indicou-lhe uma cadeira e progrediu até perto da janela. Não fosse sentir-se ainda mais ridícula, diria estar precisamente no lugar onde ela estivera antes. Permaneceu de costas, imóvel, com a mão ainda no bolso, penteando com os dedos entreabertos da outra a cabeleira basta.
— Acompanha-me num chá? De trovões sei que gosta, mas há uma infinidade de chás...
Percebeu-lhe o sarcasmo na voz. Não achou graça!

 

Continua…