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Narrativas

Fosse eu apenas seria brando, na que escreve não tenho mão.

Narrativas

Fosse eu apenas seria brando, na que escreve não tenho mão.

Shelter

26.05.22, Maria Soares

 

Vipp Shelter on Behance

 

Thunder
(continuação)

 

O mesmo que tu, fica descansado. — Atirou-lhe entre dentes.
Muito bem! Então como aconselhaste há instantes, assume quem és! — já no limiar da porta e sem se voltar para trás, acrescentou.
— Conta-lhe porque está aqui! E... não leves muito tempo! Começo a ficar impaciente com os teus métodos.
"Era impressão sua ou os papéis tinham-se invertido. O que antes supusera no controlo da situação, não passava de um subalterno? Será que... eram realmente, família? Havia algo a falhar-lhe. Algo não, muito! Se anuíra beber do mesmo, porquê a mania do chá? O que seria o "mesmo?"
Chegara ali manhã cedo e já entardecia. Se houvesse um jeito de sair, estava na altura de tentar. Nem morta passaria a noite naquele lugar. Consciencializou-se imediatamente que devia reformular o "nem morta". Matarem-na, depois de tudo o que assistira, desenhava-se o cenário provável.  
—  Posso ir-me embora após contar-me o que parece ser tão importante?
—  Receio que não.
"Claro que não! De estúpida tinha pouco. Mas perguntar-lhe, fora o cúmulo da estupidez."  

—  Simplesmente porque assim que lhe contar, vai ser você a querer ficar.
A voz dele tornava a pingar subtileza e, em simultâneo, denotava na afirmação o sarcasmo anterior. Se algum deles pensava que na posse do que tivessem para dizer-lhe deixaria tudo para trás... casa, emprego, o seu quotidiano anterior; para lá da dor do desaparecimento do pai. Da tristeza e da solidão profundas desde que a mãe falecera. Os sacrifícios árduos diários que fazia para prosseguir e coordenar-se sozinha num mundo em que ser mulher, penaliza, estavam muito enganados!
—  Já que não me resta muita escolha senão ouvi-lo, pode facultar-me o seu nome? Penso que não é justo nem muito cordial, saber com quem fala e eu... permanecer no escuro!
Uma gargalhada estridente percorreu o aposento.
— Perdão! Foi indelicado da minha parte, é certo, mas... quando falou em escuro... não consegui conter o riso.
— Compreendo que isto deve ser tão divertido para si, como para os seus irmãos.
— Irmãos?! Donde tirou tal ideia? Nenhum de nós tem alguma relação com o outro.
— Essa é boa! Não fui eu quem falou em pai e na mãe. Logo...
— Olhe, Cassandra é melhor...
— O meu nome é Lídia Seabra! Não faço ideia de quem é essa Cassandra, nem por que fazem isto?
— Calma! Não se deixe invadir por emoções negativas. É o pior que pode acontecer no momento. Perceba uma coisa: se há alguém que a pode tirar daqui com vida, sou eu. Se lhe chamo Cassandra... acredite que este, é o seu verdadeiro nome. Esqueça tudo! O resto é nada, agora. Onde nasceu, em que família, o nome deles, emprego… o que viveu até aqui, não existe!
— O quê?!
— Ouça! Se voltar a pôr o pé lá fora, o que encontrou quando veio, não estará lá. E a única forma de sobreviver aqui e agora e... se existir depois e lá fora, depende de mim. A Lídia Seabra extinguiu-se mal trespassou aquela porta. E o mundo inteiro com ela!
—  Não! Eu não vos fiz nada! Não vos conheço. Não podem prender-me aqui contra a minha vontade. Por favor! Devolvam-me a minha vida! 
Num ápice, a pessoa que tivera na minha frente transformou-se noutra que se precipitou sobre mim. Uma das mãos na minha boca e a outra... que mantivera sempre no bolso, a pressionar-me o externo, como se nele estacionasse um "caterpillar". A voz no meu ouvido não era... deste mundo!
— Cala-te! Falei-te ou não, de emoções negativas? Não me faças mudar de ideias, imbecil! Porque de repente... nem em mim, podes confiar. Controla-te! Ou... entrego-te a eles!
O polimento nas atitudes e no discurso desvaneceu-se. A oferta de ajuda, deu lugar à possibilidade de ele mesmo tratar de aniquilar-me. Regalava-se com a minha fraqueza! A antecipação do que ia passar-se fazia-o inchar de adrenalina! Foi então que ma revelou...
A mão dele era grotesca! O cheiro... nauseabundo. Na minha cabeça formulou-se a mais terrífica das realidades.
"Eles não eram... humanos!  E eu ia morrer sem nunca me ser revelado porquê!"


(continua...)