Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Narrativas

Fosse eu apenas seria brando, na que escreve não tenho mão.

Narrativas

Fosse eu apenas seria brando, na que escreve não tenho mão.

Mirrrors

26.05.22, Maria Soares

 

Зеркало и женщина - две тайны и неисчерпаемая тема в мировой живописи

 

Thunder
(continuação)

 

Estavam e, em simultâneo, não estavam no salão! A única certeza é que não os conhecia e aquele jogo de espelhos era doentio. Um toca e foge entre caçador e presa, que exigia um esforço descomunal entre o permanecer concentrada no que era real e não; na acção a desenrolar-se no espelho, que imediatamente se materializava na sua frente. Sendo que as "falas" daquele "filme mudo", só as percepcionava na mente, porque embora mexessem os lábios não emitiam um som!
O seu anfitrião mantinha-se focado e igualmente em silêncio. Não os apresentara e a bem-dizer... nem o nome dele lhe confiara. Até ao momento continuava a sentir-se um joguete nas mãos deles.
A culpa era sua, de mais ninguém! Mal cruzara a entrada daquela casa apalaçada, estrategicamente construída longe do povoado, posicionara-se nas mãos daquele homem. Empenhara quiçá o seu futuro. A existir um meio de sair dali ilesa...
No espelho identificou os seus pais. Parte da vida deles, anterior ao seu nascimento. Algo também documentado em fotografias na sua casa, que retinha de relatos que os mesmos haviam-lhe confiado.
Quando no espelho se esbatiam as imagens dos progenitores, personificavam-se na sala o homem e a mulher, que nada tinham a ver com ambos e pensava ter visto entrar no salão.
Devido à força que fazia para se manter atenta aquela espécie de teatro, a dor excruciante de cabeça tornou-se praticamente insuportável. Respirava em suplício, com a característica guinada inguinal, de quem se supera, mas não dá mais!
Chega! Parem com isso. 
A voz dele troou severa e peremptória no salão! Finalmente quem podia, punha termo àquilo. No espelho as imagens ganharam uma nebulosidade indistinta, embora se continuasse a desenrolar algo que não identificava. Porém, precisava redireccionar agora a sua atenção para mais perto. Tanto o rapaz, como a rapariga, passaram a estar alcançáveis e audíveis. Distariam um metro de si!
Tens razão. Onde deixámos os modos?  Não vamos esgotar a nossa convidada. — respondeu ela num tom escarninho.
— Façamos um intervalo. — anuiu o rapaz ao lado dela, com olhar maquiavélico, a voz gélida e sibilante. — Se o pai estivesse aqui, ter-nos-ia inviabilizado esta nesga de diversão. E a mãe...
— O pai! Um convincente dissuasor dos prazeres menores... A mãe? Uma fraca. Incapaz de fazer-lhe frente. Ambos desprovidos de sentido de humor. —
retorqui ela, espevitando a longa cabeleira com os dedos, espalhando os caracóis negros por toda a parte.
Compreendeu que os três eram irmãos. A fisionomia aproximava-os. Com a peculiaridade de ela ter a totalidade do cabelo azeviche e o outro a "juba" branca. 
Deixa os pais fora disto, Saphira! Comporta-te! Assume quem és!
Ela rodou vertiginosamente sobre si. No ar estalou o riscar de um garfo, na superfície de um prato. Ficou a centímetros do seu hospedeiro fixando os olhos nos dele a chispar raiva.
Já lhe confiaste o teu nome?! O que está aqui a fazer, ou queres que faça as honras da casa?!
Os olhos dardejavam-lhe mais e mais de fúria. O terceiro interpôs-se entre eles. Curiosamente sem um som ao mover-se.
—  Psiu!... vá, lá! Cada coisa a seu tempo. Controlem-se os dois! 
Chá! Ainda há pouco me referi a um chá, talvez fosse o ideal agora. — Contrapôs o "dono da casa".
Lúcia Lima, Cidreira, Camomila, Frutos, vermelhos... — soltou entre gargalhadas o "urso branco".
Olha, vai bugiar! — Atirou-lhe a irmã voltando costas, de dedo em riste, a caminho da porta.
— Queridíssima, Saphira! Sei perfeitamente que preferes algo mais forte e... encorpado.
 E tu? Ainda bebes do mesmo?

(continua...)